Ajuda mútua como fator de evolução

Século 21: nem toda a ciência, toda a tecnologia, todo o conhecimento acumulado até então pode ser eficiente para enfrentar os grandes problemas humanitários se não houver gestão colaborativa de proteção mútua.

Ajuda mútua como fator de evolução

Por Katia Gonçalves Mori

Piotr Ayexeyevich Kropotkin (1842 – 1921), geógrafo e filósofo russo, queria demonstrar que havia meios para se pensar em outra ordem social possível para além do individualismo competitivo. Em sua obra Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução, Kropotkin desenvolveu seu estudo motivado pela ideia de que não havia nada que comprovasse, por observação direta, que o homem vive constantemente contra outro homem, ou que isso é o que garante a evolução da espécie. Para comprovar sua premissa, seus estudos envolveram várias espécies animais e partiram da seguinte investigação: Quem são os mais aptos? Os que constantemente lutam entre si? Ou aqueles que se apóiam entre si?

Comunidades fortes e o instinto de proteção mútua

Em busca da resposta a esse problema, ele verificou que o apoio mútuo é o fator essencial para que haja evolução, demonstrando essa prática em várias espécies, em diferentes contextos. Entre os animais, essa característica é muito comum e fácil de ser observada, tanto entre as espécies mais simples, como os insetos, como entre aves, roedores e mamíferos (por exemplo, os pelicanos, as focas, os elefantes, as hienas). Kropotkin observou que as comunidades em que os membros se protegem ficam cada vez mais fortes, enquanto nos grupos em que não é observada a relação de colaboração e proteção entre seus membros, o risco de extinção aumenta. Os pelicanos, por exemplo, se reúnem em bandos de 40 a 50 mil. Enquanto uma parte dorme, a outra pesca para que possam se cuidar. O instinto de proteção mútua traz mais segurança frente à ameaça aos predadores e faz com tenham mais facilidade na hora de obter alimentos nas provisões invernais, na proteção do bando ("sentinelas"), nos movimentos migratórios. Ainda que na natureza a conexão seja pelo instinto de proteção e não haja a concepção de colaboração entre sujeitos - subjetiva, com valores e crenças agregados, elas têm muito a nos ensinar.



As sociedades de abelhas estão apoiadas em complexas redes colaborativas que se regulam para produzir seus alimentos e se proteger tomando decisões coletivas por meio de uma comunicação eficiente que envolve danças, bater das asas, voos. A colaboração de todos os membros equilibra e protege a colônia. Além disso, a polinização remete-nos a um dos mais importantes reguladores naturais do planeta.

Ao observar a natureza, é possível ver que quanto mais sólida a relação entre os membros da espécie, mais forte e adaptada ela se apresenta. Essa, aliás, é a mesma raiz do conceito de solidariedade. A palavra remete a solidez, coesão. Para os humanos, a solidariedade entre os indivíduos prolonga os anos de vida, na medida em que facilita o desenvolvimento das faculdades intelectuais e cria instituições em que os membros colaboram entre si, em torno de um objetivo comum.

A linguagem (comunicação), o conhecimento (as ciências) e as ferramentas (tecnologias), alinhadas a políticas de proteção e redes de colaboração tecidas pela confiança, permitem a sobrevivência na luta dura contra os fenômenos naturais (como, por exemplo, as pandemias) e sociais, como, por exemplo, a fome (Kropotkin, 2009; Demo, 2002; Mori, 2013).

Solidariedade e sobrevivência

A solidariedade implica, portanto, na reciprocidade, no apoio mútuo, por isso é horizontal. Nesse aspecto, supera a apropriação cristã pré-moderna do termo, entendida como benevolência, amor ao próximo... (Westphal, 2008). Ainda que exista a aproximação moral de “bondade” ou “benevolência” atrelada ao conceito, a ideia central é que a solidariedade é “boa” porque é determinante para a sobrevivência, na medida em que permite superar fraquezas individuais e melhorar a qualidade de vida daquele grupo e de cada um.
Nesse sentido, é preciso investir e valorizar a solidariedade e fortalecer as redes colaborativas, criando laços de manutenção da confiança entre seus membros. Quanto mais fortes são esses laços, mais sadio o tecido social está para o enfrentamento de crises complexas, pois elas exigem gestão coordenada multidisciplinar ao invés de respostas isoladas e simplistas.

Solidariedade se aprende

Sociedades que investem em uma educação solidária criam indivíduos que aprendem a utilizar o conhecimento para resolver problemas sociais com colaboração e corresponsabilidade. O respeito ao outro, a plasticidade e a flexibilidade conferem uma melhor capacidade de resposta e poder de adpatação.
Propostas educativas, como aprendizagem e serviço solidário e academia ubuntu, por exemplo, são exemplos inspiradores praticados por crianças e jovens ao redor do mundo... Desafiar os estudantes a propor soluções orgânicas e colaborativas podem transformar um conteúdo "sem sentido" em uma aprendizagem desafiadora, contextualizada, criativa. Pode transformar uma educação pautada apenas no sucesso particular para uma educação que forme humanos capazes de colaborar entre si e assim construir um mundo melhor.


Katia Gonçalves Mori


Referências bibliográficas:


Demo, Pedro. Solidariedade como efeito de poder. São Paulo: Cortez, 2002.

Kropotkin, Piotr. Ajuda mútua, um fator de evolução. Tradução Valdir Azevedo Jr. São Sebastião: A Senhora Editora, 2009.

Mori, Katia Gonçalves. A solidariedade como prática curricular educativa. Tese de doutorado. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2013.

Westphal, Vera. Diferentes matizes da ideia de solidariedade. Revista Katálysis, vol.11, n.1. Florianópolis, 2008.

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